A porta que separa o departamento de costura A do departamento de costura B na fábrica do diretor Pham, distrito de Bình Tân, Cidade de Ho Chi Minh, é uma porta de duplo batente em metal cinza-claro com a placa P-12B. Foi instalada, disse-me Hà Thị Linh depois no pátio durante a pausa do almoço, em março de dois mil e dezenove, pelo manutentor Quân, hoje com setenta e três anos, que calibrou a sua mola de retorno em três segundos e meio no verso de uma guia de entrega de sapatos.
O departamento A tem ar-condicionado desde março. O departamento B tem seis ventiladores de teto. A diferença, às nove da manhã, é de sete graus. A diferença, às catorze, é de nove graus. A diferença, disse-me Linh, é a razão pela qual na semana passada Một, cinquenta e dois anos, fila cinco, teve um desmaio entre a fila três e a fila quatro e caiu no chão de cimento. Pham não registrou em ata. Hương levou-a de volta à máquina depois de doze minutos.
Linh tem trinta e um anos, está na fábrica há quatro, fila quatro máquina sete. Manda todo mês dois milhões e quatrocentos mil dongs para a família. Um milhão e novecentos mil para a mensalidade do irmão, vinte e um anos, segundo ano de engenharia elétrica na Universidade de Cần Thơ. Quinhentos mil para a mãe, sessenta e oito, em Bến Tre, para o remédio da pressão.
Esta manhã às cinco e quarenta e seis, antes do início do turno, o diretor Pham parou o manutentor Quân no pátio e disse-lhe que amanhã, sábado, devia passar para verificar a mola da porta P-12B porque o desgaste, disse-lhe Pham, é anómalo. Quân disse sim. Pham foi-se. Quân, disse-me Linh, olhou um instante para o departamento B e depois continuou para a oficina.
Às seis e catorze, durante a primeira troca de bobina do dia, Linh abre a porta P-12B. Abre-a totalmente. O fluxo de ar frio do departamento A entra no departamento B com um som baixo. Depois, ouvindo os passos de Hương no corredor central, Linh devolve a porta a uma abertura de cerca de trinta centímetros e pousa-a com o pé direito sobre a soleira de metal. A sandália, borracha preta tamanho trinta e seis, sola gasta sob o dedão, apoia-se metade dentro da soleira e metade fora.
A partir desse momento, a cada vinte e dois minutos aproximadamente, Hương passa pelo corredor. A porta fica em trinta centímetros. O pé de Linh não se move.
Bích Trâm, vinte e três anos, fila quatro máquina oito, desloca a sua Juki quarenta centímetros em direção à porta. Một, a que tinha caído na semana passada, desloca a dela trinta. Hà, trinta e sete anos, fila dois, traz uma toalha da pausa do café e pousa-a no chão onde cai o óleo da máquina mais próxima da porta, porque o óleo no ar frio fica escorregadio e hoje, disse-me Linh, ninguém deve cair.
Às nove e vinte e quatro o termômetro analógico marca trinta e dois graus na metade do departamento perto da porta P-12B. Trinta e sete graus na metade distante. A diferença, disse-me Linh, é de cinco graus, e cinco graus é a diferença entre uma camisa costurada bem e uma camisa costurada como se pode.
Às dez e onze a Juki da fila três máquina dois quebra. O pinhão do calcador salta dois dentes. A operária dessa estação, Diệu, vinte e oito anos, atravessa a porta P-12B para pedir um calcador de reposição ao supervisor Khánh no departamento A. O calcador em A não está. Khánh chama o manutentor Quân por rádio. Quân responde da oficina e diz para esperar oito minutos.
Pelos quarenta minutos seguintes a porta P-12B fica completamente aberta. Linh não tira o pé. Quân atravessa duas vezes, na ida em direção ao depósito do departamento B para pegar o pinhão, na volta em direção ao departamento A com o calcador. A segunda vez, ao sair, pousa a mão direita sobre a maçaneta de aço inox por um instante. A maçaneta, disse-me Linh depois no pátio, às dez e cinquenta e uma está fria. O fluxo de ar do departamento A bateu nela durante quarenta minutos.
Às dez e cinquenta e uma, Diệu coloca de volta em funcionamento a Juki. A porta volta a trinta centímetros. O pé de Linh volta à soleira.
Hương não passava no departamento B desde as nove e quarenta e seis. Às onze e trinta e oito, Hương para diante da porta P-12B. Linh está costurando a bainha de uma camisa branca de manga curta, tamanho M, lote 04-26-3. A máquina zumbe. O termômetro atrás da máquina sete marca trinta e três vírgula dois. Linh tem a camiseta encharcada sob as axilas e ao longo da coluna. O pé direito está sobre a soleira de metal há cinco horas e vinte e quatro minutos. A sandália deixou um meio círculo de umidade sobre a junta de borracha da porta.
Linh não tira o pé.
Três segundos. Hương olha para o pé. Hương olha para Linh. Linh não cruza o olhar, costura. Hương diz uma única coisa, em voz baixa, e diz «dois mil e treze, vinte e dois». Depois Hương vira e retoma a ronda.
Linh sabe o que significa. Vinte e dois era o número de operárias do departamento B em dois mil e treze, quando a própria Hương entrou na fábrica como operária, fila três, máquina dez. Vinte e dois, disse-me Linh depois no pátio, é o número de mulheres que tiveram de assinar a renúncia às três pausas adicionais de verão para obter os ventiladores de teto, os seis ventiladores que hoje giram sobre a cabeça de Linh e não bastam. Hương assinou primeiro.
Às doze e três, o diretor Pham entra pelo corredor central com o rádio na mão. O rádio transmite em viva-voz uma voz masculina em inglês americano, sotaque do sul, que diz um número e depois diz «final order, no further movement», e depois uma pausa, e depois «we'll see in two weeks». Pham para diante da porta P-12B. Pham olha para a porta aberta. Pham olha para o pé de Linh. Pham olha para Linh. Linh costura. Pham não chama Hương. Pham baixa o rádio e vira-se para o departamento A. A voz americana diz mais alguma coisa. Pham vai-se.
A porta fica aberta.
Dezoito horas. A sirene de fim de turno toca. Linh tira o pé. A porta fecha em três segundos e meio, como Quân a havia calibrado em março de dois mil e dezenove. Linh inclina-se sobre a soleira de metal para refazer a fivela da sandália direita, que a pressão do turno afrouxou. A fivela faz um pequeno estalo de latão. Linh ergue-se.
Linh sai com as outras operárias do departamento B em direção ao pátio. O ar frio, disse-me Linh, fica no departamento B por cerca de dez minutos depois do fechamento da porta. Depois não mais. Amanhã o manutentor Quân, que tem setenta e três anos e uma caligrafia minúscula no verso das guias de entrega de sapatos, passa para verificar a mola. Linh não sabe, disse-me ela, se Quân escreverá um segundo cálculo no verso da guia, ou se dobrará de novo a guia na pasta sem acrescentar nada. Quân é amigo de Hương desde dois mil e dezenove. Quân é empregado de Pham desde dois mil e dez.
Linh volta para casa de moto. Seu quarto fica no beco quarenta e oito da rua Bình Long, a vinte e dois minutos da fábrica. Às quatro da madrugada, uma moto entra no beco e para duas portas adiante. É a vizinha, Châu, que volta do turno da noite na fábrica de sapatos Pou Yuen. Châu desliga o motor. Linh ouve a chave girar na fechadura.